Hoje
Vivo na calma quase sem alegria, o que me é um bom equilíbrio. Faço do meu dia o mais longo possível.
Dá-me tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e não sei como falar – a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas.
Estou descobrindo a identidade de minha vida mais profunda. Em derrocada difícil, abrem-se dentro de mim passagens duras e estreitas. Abre-se em mim a larga vida do silêncio, se eu tiver a coragem de abandonar meus sentimentos. Se eu tiver coragem de abandonar a esperança. Abandonar a esperança em vir a ser aquilo que eu não era.
É uma metarmofose em que perco tudo o que tinha, e o que eu tinha era eu – só tenho o que sou. E eis que a mão que eu segurava me abandonou. Não, não. Eu é que larguei a mão porque agora tenho que ir sozinha. Eu estou em pleno seio de uma indiferença que é quieta e alerta. E no seio de um indiferente amor, de um indiferente sono acordado, de uma dor indiferente.
Provação. Agora entendo o que é provação. Provação significa que a vida está me provando. Mas provação: significa que eu também estou provando.
Eu comi do fruto proibido e no entanto não fui fulminada pela orgia do ser. Existe um abismo entre a palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano. Por eu ter mergulhado no abismo é que estou começando a amar o abismo de que sou feita.
Antes, a esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque achava arriscado demais perder-se a forma. Agora, só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.
A mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência. Não posso, não poderia ter aumentado infinitamente o pedido que nasce da carência.
Despedir-me disso tudo significa uma grande desilusão. Mas é na desilusão que se cumpre a promessa, e é por isso que antes se precisa passar pelo inferno: até que se vê que há um modo muito mais profundo de amar, e esse modo prescinde do acréscimo da beleza.
Mas agora, através de meu mais difícil espanto – estou enfim caminhando em direção ao caminho inverso. Caminho em direção à destruição do que construi, caminho para a despersonalização. E não caminharei “de pensamento a pensamento”, mas de atitude a atitude.
Não estou à altura do paraíso porque o paraíso não tem gosto humano. Tenho avidez pelo mundo, tenho desejos fortes e definidos. É um amor muito maior que estou exigindo de mim. A organização se desponta ao ver em mim um brilho no olhar, apesar das lágrimas de desilusão.
Estou presisando danadamente me divertir e me divergir, hoje de noite irei dançar e comer, não usarei o vestido azul, mas o preto e branco. E não preciso de nada, nem de desejos, nem de paixões.
Ah, se eu não tivesse precisando tanto de mim para formar minha vida, eu já teria tido a vida!
Por um longo tempo eu inventei a tua presença. Eu te prendia, e tua vida desconhecida e quente estava sendo a minha única organização, eu que sem a tua mão me sinto agora solta no tamanho enorme que descobri. No tamanho da verdade.
Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustava e te perdia. Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.
Aquilo que provavelmente pedi da vida e finalmente tive, veio no entanto me deixar carente como uma criança que anda sozinha pela terra. Tão carente que só o amor de todo o universo por mim poderia me consolar.
Terá sido o amor o que vi? Mas que amor é tão cego? Foi isso? O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão. Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior.
Antes o que era eu? Era o que os outros sempre me haviam visto ser, e assim eu me conhecia. Hoje alarga-se em silêncio esta casa onde em semiluxo eu vivo. Eu ganhando de novo o gosto insípido e feliz da liberdade. Sou o enredo da minha vida. Eu me trato como as pessoas me tratam, sou aquilo que de mim os outros veem, e isso sempre foi a minha naturalidade e a minha saúde. Ajo como o que se chama de pessoa realizada.
Só sei agora que não podia mais lidar com aquilo que já não era eu: um abismo de nada.
A desistência é uma revelação. Desisto e terei a pessoa humana. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo me cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana.
Viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.
“Todo momento de achar é um perder-se a si próprio”.
Mas como adulta tive a coragem infantil de me perder?
Perder significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Eu estava presa. E eu quero ser presa. Já não sei mais o que fazer da liberdade. Estava presa e contente. Tenho saudade da minha feliz rotina de prisioneira. Sei que precisarei tomar cuidado para não usar sub-repticiamente uma nova terceira perna que em mim pode renascer fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de “uma verdade”.
Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E nada existiu. A realidade é mesmo que nada existiu. Só posso compreender o que me acontece. Quem sabe me aconteceu uma lenta e grande dissolução? Para contornar o caos, luto agora contra essa desintegração dando-lhe forma.
Eu havia humanizado demais a vida. Tenho que salvar o dia de amanhã, já que não sinto força estando desorganizada.Farei um esforço agora para deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja. Penso que esse esforço será facilitado se eu escrever.
Mas receio começar a compor para poder ser entendida pelo alguém imaginário, receio começar a “fazer” um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber em mim. Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido, de ir falando para o nada e para o ninguém.
Espero encontrar uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes. Só que agora, agora sei de um segredo. Não contava que fosse esse segredo um grande desencontro. Que já estou esquecendo, ah sinto que já estou esquecendo…
Para que eu continue humana meu sacrifício será o de esquecer. Agora tenho de ir para minha liberdade.
Entregar-me ao que não entendo fora pôr-me à beira do nada. Fora ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Esperimentei essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Me dando a mão à mão mal-assombrada, e entrar no que supunha ser o paraiso. Um paraiso que não quero!
Inventei a tal ideia de amor como uma mão que realmente estivesse ligada a um corpo que, se não via, era por incapacidade de amar mais. Não estou definitivamente à altura de amar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira.
Sempre tive receio de viver o que é novo, e sempre tive medo de viver o que não entendo. Sempre procurei entender o que me ocorria e talvez o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo. Mas , no ano passado, acabei me permitindo viver o que ia sendo. Nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê. E me perdi. E me desorganizei. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.
Era uma pessoa organizada e nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem sentia o grande esforço de construção que era viver. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança.
Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra. A isso chamo de desorganização, e mesmo me aventurando , sabia depois para onde voltar: para a organização anterior.
Agora, diante das minhas visões fragmentárias. o meu mundo terá que se tranformar para eu caber nele.
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária , assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que eté então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável de mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava.
Hoje eu não quero agito, não quero passear, nem quero conversar com os amigos. Hoje estou para passar o dia comigo. Quero um instante de solidão.
Peço silêncio porque preciso de calma para ouvir o barulho que vem do lado de dentro.
Hoje me sinto no direito de me fazer solitária- é minha forma de homenagear a vida. E se hoje lágrimas minhas preparam o solo para um crescimento que se aproxima, é porque essa hidratação se faz necessária.
Hoje, quero explorar os tortos caminhos dos meus sentidos. Mas nessa aventura não quero repressores, nem setas indicando perigo. Quero tirar as vestes da consciência e mergulhar nua, e de ponta, para tocar minha emoção e libertá-la da rede onde se encontra.
Hoje eu quero ser minha melhor amiga para não ter medo de dividir tudo comigo mesma. Quero desvendar meus porquês mesmo que tenha que lamber minhas feridas. Quero me achar, me perdar e me redescobrir.
Depois que me bastar do meu silêncio quero me entregar a um livro que misteriosamente me chama.
“Só ao me reviver é que vou viver.” Clarisse Lispedtor
Você tirou meus beijos e todo o meu amor
Você me ensinou como cuidar
Sou apenas um remanescente de um amor de lado?
Tudo que você tirou
Eu dei com prazer
Não há nada deixado para me salvar
Tudo de mim
Por que não tirou tudo de mim?
Você não consegue ver
Que não sou boa sem você
Tire meus lábios
Eu quero perde-los
Tire meus braços
Eu nunca os usarei
Seu adeus me deixou com lágrimas nos olhos
Como continuar, querido, sem você?
Você tirou a parte que já foi do meu coração
Então por que não tirou tudo de mim?
Eu quero saber o que é o amor
Eu tenho que dar um tempo
Um pouco de tempo para pensar sobre coisas
É melhor eu ler nas entrelinhas
Caso eu precise quando envelhecer
Na minha vida, só tem havido sofrimento e dor
Eu não sei se posso encarar isso de novo
Eu não posso parar agora, eu fui longe demais
Para mudar esta minha vida solitária
Eu quero saber o que é o amor
Eu quero que você me mostre
Eu quero sentir o que é o amor
Eu sei que você pode me mostrar
Eu vou achar um tempo
um tempo para cuidar melhor de mim
Não sobrou nenhum lugar para me esconder
Parece que o amor finalmente me encontrou
Vamos falar sobre amor
Eu quero saber o que é o amor, o amor que você sente por dentro
Eu quero que você me mostre, e eu estou muito apaixonada
Eu quero sentir o que é o amor, não, você apenas não pode esconder
Eu sei que você pode me mostrar.
(Mick Jones)
Uma das características mais marcantes das personalidades de sucesso é a perseverança. Entretanto, há os que confundem essa qualidade com um grave defeito: a insistência ou teimosia.
Existe um sutil diferença entre essas maneiras de agir. Perseverança revela firmeza de propósitos, já a insistência ou teimosia é indício de um caráter arrogante e prepotente.
Às vezes, a nossa arrogância nos faz cegos… Quantas vezes criticamos a ação dos outros? Quantas vezes exigimos mudanças de comportamento nas pessoas que nos rodeiam quando, na verdade, nós é que deveríamos mudar nosso rumo?
A prepotência costuma conduzir as pessoas em direção ao sofrimento e, mesmo assim, continuam insistindo em ações e exigências descabidas.
A vida que está em constante transformação, tudo muda muito rapidamente, e atitudes inflexíveis podem acabar sendo pouco adequadas.
Antes de insistir em um ponto de vista, é melhor analisar toda a situação com mais cautela. Muitas vezes você se surpreenderá ao conhecer o outro lado da questão. E isso poderá evitar seu próprio naufrágio.
Outra atitude bastante desejável é ouvir e analisar outras opiniões, inclusive aquelas vindas dos mais experientes, mesmo que sejam completamente divergentes das suas.
Defender um ponto de vista e ser perseverante é louvável, mas isso não implica necessariamente em ser inflexível e teimoso.
Como disse William Shakespeare “Ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa o quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados”.
Assim, antes de exigir que alguém mude o rumo, verifique se não é você quem está indo direto rumo ao desastre.


