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Você perdeu…

A necessidade de introspecção  me faz embarcar em leituras e estudos sem fim… Não é fuga. Ao contrário, é busca.  Busco descobrir o mundo, o humano e principalmente a mim.

Sinto que estou eternamente brincando o  jogo da amarelinha: tentando lançar sem errar, minhas pedrinhas e saltando com um só pé, em direção ao céu.

Penso nas inúmeras pessoas que fizeram parte da minha vida e que partiram  em seus caminhos. Perdi o convívio com muitas delas sem motivos reais evidenciáveis. Lamentei muitas vezes e sofri por isso. Agora entendo que a atração  que nos faz querer manter o contato com as pessoas está muito além da nossa vontade.

Nosso cérebro, queiramos ou não, funciona por vias primitivas autonômicas e  nele a interação  entre o que vivenciamos  e o setor de recompensa, gratificação e prazer  é o que determinará nosso direcionamento  de pensamentos e consequentemente nossas ações de aproximação ou afastamento  tanto de coisas, como de situações ou pessoas.

Imagino que a maioria delas se perderam de mim ou eu as perdi, por mecanismos intencionais gerados direta ou indiretamente por nossos cérebros. O que deixa claro, que nem sempre houve uma motivação ou razão  bem consistente para que o afastamento acontecesse. Talvez não nos gratificasse mais como nosso cérebro gostaria. Ou simplesmente não nos proporcionasse mais tanto prazer, nossa maior forma de recompensa.

É como diz a música da Maria Bethânia:

Foi você quem se perdeu de mim
Foi você quem se perdeu
Foi você quem perdeu
Você perdeu

Então é isso…

Tudo tem um fim!

Adoro cuidar das minhas plantas. Pena que não tenho muito tempo para me dedicar a elas. Sempre sou surpreendida por uma delas. Nessa primavera foi a vez da minha Sansevieria cylindrica, cujo nome popular é Lança-de-São-Jorge. Sua inflorescência me encantou (foto acima).

Admirando a beleza da natureza à nossa volta podemos tirar grande experiência dela. Incomodada porque toda a beleza da minha planta estava fadada a se esvanecer, pensei que não só ela possui a sina da transitoriedade à qual está destinada. A beleza do corpo e do rosto humanos, típica da juventude, nós a vemos perder-se no decorrer de nossa própria vida. Assim também acontece com nossos sentimentos, nossos amores e a muitas coisas que criamos. Tudo se transforma e por fim se esvai associado a sua escassez no tempo. Tudo tem seu tempo. Tudo está limitado a seu tempo.

Ao pensarmos que tudo que temos de bom – as belezas da natureza, o universo de sentimentos que cultivamos, nossos amores e até sabedoria- desvanece e se transforma em nada sob a ação do tempo, podemos tanto nos desiludir quanto valorizar ainda mais o presente.

O valor da escassez do tempo reside no fato de que aquilo que amamos e admiramos é valorizado justamente por seu aspecto transitório. Ou seja, a constatação da limitação da existência (sejam coisas, situações ou pessoas), nos quais investimos nosso afeto os torna ainda mais preciosos no momento em que podemos desfrutar deles.

No que diz respeito à natureza, a esperança é que elas sempre retornam exuberantes no ano seguinte.

O Bovarismo moderno

 

A personagem Madame Bovary da importante obra do escritor francês Gustave Flaubert criava sonhos e imagens românticas para preencher o vazio de uma vida repleta de insatisfações; o que teriam feito o autor pensar na força psíquica da fantasia.

O que existe de “anormal” em sonhar com aventuras românticas maravilhosas, enquanto leva uma vida comum?

A descrição desse estado de espírito é tão precisa que foi forjado um termo para designa-lo: Bovarismo. Bovarismo, desde então, passou a ser sinônimo de capacidade de imaginar.

Bovarismo também é a designação da doença original da alma humana, onde o ser humano concebe a si mesmo de outro modo que não aquele que é na verdade. Ou seja, o bovarismo consiste em “se imaginar diferente do que se é”.

Essa capacidade remete, nas pessoas “normais”,  não a uma fraqueza de caráter, mas a um funcionamento psicológico, típico da espécie humana. Isso porque existe a ideia de que o pensamento humano pode seguir dois caminhos : o das sensações ordinárias, da realidade, e o de um universo produzido como se fosse um paralelo do outro. Quando o real é cruel ou insatisfatório, o pensamento toma o caminho da fantasia ou ilusório, como um mecanismo heroico de se fazer sentir como um ser melhor e mais aceitável pela própria pessoa.

Na minha opinião, o tédio da vida moderna e a estupidez da realidade são, hoje em dia, os principais fatores que levam a uma maior sensibilidade imaginativa. O boverismo está nitidamente nos relacionamentos virtuais devido a procura ansiosa para preencher o vazio existencial que assola a todos nós.

Noite

“Temo as horas caladas da noite, e o coração aperta-se quando o sono me aperta sobre as pálpebras amortecidas; porque para mim o sono não é repouso, e os fantasmas das sombras são mais cruéis do que as cruéis realidade do dia”

Alexandre Herculano.

Quem ainda não passou uma noite rolando na cama e com tentativas frustradas de acalmar a mente e pegar no sono profundo, não pode imaginar a aflição de uma noite dessas.

E no dia seguinte então? Mil coisas pra fazer. Os compromissos assumidos. A cabeça que tem que estar “tinindo” pra dar conta de tudo…

Toda a inquietação que assola a humanidade passeia livremente pelos pensamentos, como se numa reflexão insone e solitária pudesse encontrar a solução para cada questionamento. Poetas, filósofos, músicos, aproveitam bem esses momentos para criação.

Insônia não deveria ser uma irritante sensação proporcionada pelo falta de indução do sono,  deveria ser percebida apenas como um coração desassossegado e absolutamente incapaz, naquele momento, de se manter satisfeito.

Se os chineses  insistem que a oportunidade está na crise, preciso aprender a aproveitar melhor as crises das madrugadas .

 

Vi estas afirmativas num blog com a seguinte pergunta:

Existe algo nestas frases imperativas que você ainda não consegue fazer?

Pra mim o que não consigo fazer é: ORE!

Não consigo crer ou ter fé no sobrenatural.

Religião somente no contexto histórico.

Deus, Céus e Infernos, Santos e Santas, Íncubos e Súcubos, Paraísos e Purgatórios.

Acredito mesmo é que vivo  no Limbo.

O fim do mundo

Postales Del Fin Del Mundo, Patagõnia Argentina, Malbec Syrah, 2009. Este é o vinho. Tudo perfeito. Noite chuvosa, quente-úmida. Cabeça girando a mil.

Acontecendo: Encontro Internacional do Vinho, no Hotel Ilha do Boi, em Vitória.

 

Eu, usando e abusando de Dante Alighieri, em “Banquete” Tratado IV:

 

“As doces rimas de amor que eu procurava

procurar em meus pensamentos

é necessário que as deixe; não porque eu não espere

a elas voltar,

mas porque os atos desdenhosos e altivo

que em meu homem

apareceram, fecharam-me o caminho

do costumeiro falar.

 

E pois que me parece tempo de desistir,

descurarei meu suave estilo,

que mantive ao tratar de amor,

falarei do valor,

pelo qual realmente alguém é gentil,

com rima áspera e sutil;

reprovando o juizo falso e vil

daqueles que querem que da gentileza

seja princípio e riqueza.

 

E , começando, invoco aquele senhor

que em meus olhos mora,

pelo que ele de si mesmo se enamora.”

Finados

Finados: Numa data dessas a mente não para de fazer incontroláveis cambalhotas.

O que atrai nos cemitérios? Talvez o fato de que conservem realmente algo além de ossos? Talvez dos mortos reste, com a recordação, também uma marca da sua presença? Talvez porque a lápide fique impregnada com sua história?

Minhas visitas ao cemitério nesses últimos nove anos, foram momentos sofridos que decidi não repetir mais.

Sentia como se  a tumba dela, silenciosa e solitária, esquecida por todo o ano, parecesse falar de verdade. O simples fato de que eu a estivesse visitando era como se lhe desse vida novamente. Ou, quem sabe, sem a medida do tempo, aquele passado não continuasse sempre ali, presente, para quando eu quisesse me comover?

Naquele lugar não estão os restos dela, mas apenas os fantasmas que impregnam nossas almas com gritos, com sofrimento, com horror, dos quais é preciso simplesmente tomar distância.

A necessidade de ser prática me fez indagar o porquê de tantos ritos ou convenções em torno da morte.  Essas convenções ao invez de nos ajudar a aliviar o sofrimento acabam por reavivá-lo. Acredito que a dor de ter perdido uma pessoa querida  só torna suportável  se  tirarmos dela o máximo  de sentimentalismo.

Não dá para ficar parada ali, no cemitério, olhando para o nada e tentar colocar a alma em paz e aceitar que aquele acontecimento tivesse sido um simples fato estatístico. Que uma mãe perder sua filha não é nada de estranho. A realidade é que o estranho sempre permanece ali bem diante de mim, e de uma maneira arrepiante.

Ali está a prova de que tudo de fato aconteceu, e, então a vida não tem sentido algum! Viver não serve para nada!

Basta!

Resolvi adicionar um pouco de poesia a minha vida, não uma razão a mais para me desesperar.

 A melancolia do passado me  faz parecer feia. Quero envelhecer bonita.

Achei um artigo de neurociência super legal sobre um assunto que nem paramos, muitas vezes, pra pensar.

Pesquisas neurocientíficas mostram que é possível sentir-se encantado pela mesma pessoa por décadas

Você já se imaginou vivendo 10, 20 ou 50 anos com a mesma pessoa? Sentindo sempre o mesmo prazer em sua companhia, o mesmo conforto em seus braços? Se a perspectiva parece interessante, agradeça ao seu cérebro (e se não lhe agrada, a culpa é dele, também). De certa forma, é curioso que laços afetivos fortes, como os amorosos, sejam tão importantes para nossa espécie. Tecnicamente, viver em sociedade, ou mesmo em pares, não é obrigatório para a sobrevivência de nenhum animal – vide tantos mamíferos, aves e outros bichos que procuram um par somente para o acasalamento e imediatamente depois seguem cada um o seu caminho.

Se gostamos de formar pares a ponto de investir boa parte de nossa energia, tempo e esforços cognitivos em convencer um belo exemplar do sexo interessante de que nós somos a pessoa mais sensacional e desejável na face da Terra, é porque o sistema cerebral humano, como o de outros animais sociais, é capaz de atribuir um valor positivo incrível à companhia alheia. Isso é função do sistema de recompensa, conjunto de estruturas no centro do cérebro especializadas em detectar quando algo interessante acontece, premiar-nos com uma sensação física inconfundível de prazer e satisfação e ainda associar esse prazer com o que levou a ele – o que pode ser uma ação, uma situação, um objeto ou… alguém.

Conforme o prazer se repete na companhia dessa pessoa, o valor positivo que atribuímos a ela é reforçado (enquanto torcemos para que o mesmo aconteça no cérebro dela, associando um valor cada vez mais positivo à nossa própria companhia, claro). É o que fazemos no período de namoro, quando conversas interessantes, passeios agradáveis, boa música, boa comida e carinho oferecem prazeres que vão sendo associados à companhia do outro. Se rola sexo, então, melhor ainda: o prazer do orgasmo funciona como uma cola extraordinária para o sistema de recompensa, que atribui (corretamente!) a satisfação incrível àquela pessoa específica (mas é verdade que isso não funciona tão bem em alguns cérebros…).

Com a repetição, o sistema de recompensa vai aprendendo a ficar ativado não apenas em resposta, mas também em antecipação à presença daquela pessoa. Esse prazer antecipado é a motivação, que nos dá forças para alterar compromissos, abrir espaço na agenda e ficar acordado madrugada adentro. Essa é a paixão, estado de motivação enorme em que se faz tudo em nome de mais tempo na presença do ser amado.

Quando vira amor? Essa questão é complicada, mas existe ao menos uma definição operacional curiosa: passado o ardor da paixão, descobre-se que se ama alguém quando pensar em uma vida sem ela causa angústia sincera e profunda. O amor é esse laço que faz seu cérebro achar que sua felicidade está vinculada à presença e à felicidade do outro e que fazê-lo feliz dá novo sentido à sua vida. Nesse estado, desejar o casamento é apenas natural.

Se é para sempre? Depende de vários fatores, alguns deles fora de nosso alcance, como ser traído (e não apenas sexualmente). A boa notícia da neurociência sobre a longevidade dos relacionamentos amorosos é que eles não estão necessariamente fadados ao esgotamento: é, sim, possível se sentir apaixonado décadas a fio pela mesma pessoa. E não é mero acaso de sorte: você pode fazer sua parte. É uma questão de continuar inventando e descobrindo novos prazeres a dois. Tudo para manter o sistema de recompensa do outro interessado em você…

por Suzana Herculano-Houzel (neurocientista da UFRJ)

Paixão pelo mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.


Sophia de Mello Breyner

Todo dia

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