Finados: Numa data dessas a mente não para de fazer incontroláveis cambalhotas.

O que atrai nos cemitérios? Talvez o fato de que conservem realmente algo além de ossos? Talvez dos mortos reste, com a recordação, também uma marca da sua presença? Talvez porque a lápide fique impregnada com sua história?

Minhas visitas ao cemitério nesses últimos nove anos, foram momentos sofridos que decidi não repetir mais.

Sentia como se  a tumba dela, silenciosa e solitária, esquecida por todo o ano, parecesse falar de verdade. O simples fato de que eu a estivesse visitando era como se lhe desse vida novamente. Ou, quem sabe, sem a medida do tempo, aquele passado não continuasse sempre ali, presente, para quando eu quisesse me comover?

Naquele lugar não estão os restos dela, mas apenas os fantasmas que impregnam nossas almas com gritos, com sofrimento, com horror, dos quais é preciso simplesmente tomar distância.

A necessidade de ser prática me fez indagar o porquê de tantos ritos ou convenções em torno da morte.  Essas convenções ao invez de nos ajudar a aliviar o sofrimento acabam por reavivá-lo. Acredito que a dor de ter perdido uma pessoa querida  só torna suportável  se  tirarmos dela o máximo  de sentimentalismo.

Não dá para ficar parada ali, no cemitério, olhando para o nada e tentar colocar a alma em paz e aceitar que aquele acontecimento tivesse sido um simples fato estatístico. Que uma mãe perder sua filha não é nada de estranho. A realidade é que o estranho sempre permanece ali bem diante de mim, e de uma maneira arrepiante.

Ali está a prova de que tudo de fato aconteceu, e, então a vida não tem sentido algum! Viver não serve para nada!

Basta!

Resolvi adicionar um pouco de poesia a minha vida, não uma razão a mais para me desesperar.

 A melancolia do passado me  faz parecer feia. Quero envelhecer bonita.